Quando um quer salvar a relação e o outro está cansado: o que fazer?

Quando um quer salvar a relação e o outro está cansado

O que significa quando um quer salvar a relação e o outro está cansado?
Há momentos numa relação em que os dois membros do casal já não estão no mesmo lugar emocional.
Enquanto um ainda quer muito tentar, por isso, quer conversar, perceber, recuperar, insistir, salvar a relação. O outro sente-se cansado, saturado, sem energia para mais conversas, mais conflitos, mais tentativas que parecem acabar sempre no mesmo sítio.

Esta é uma dinâmica que surge muitas vezes em contexto de consulta de terapia de casal e que é mais dolorosa para ambos. Não só pela distância que sentem um do outro, mas também porque essa distância está a ser vivida e experienciada de forma muito desigual para os dois. Assim, enquanto um se sente a lutar para não perder o parceiro e relação de casal., o outro sente a relação em crise, mas já não está a conseguir carregar mais peso, já não sente energia para continuar a lutar.

Na maioria das vezes, ambos estão a sofrer, só que de formas diferentes.

Quando um luta e o outro se afasta

Quando um dos parceiros quer salvar a relação e o outro está cansado, começa um ciclo desgastante.

Um insiste e quer falar, entender e ser entendido, resolver e saber se ainda existe uma chance de salvarem a relação em crise.
O outro evita: adia a conversa, distancia-se, silencia-se, dá respostas curtas, afasta-se emocionalmente ou diz mesmo já não saber o que sente.

E quanto mais um procura presença e proximidade, mais o outro sente a pressão e se distancia. Quanto mais um se afasta, mais o outro entra em desespero e mais sente urgência em resolver e entender. É assim que o casal vai ficando preso numa dança difícil e que gera grande angústia: um tenta aproximar-se e sente medo de perder, enquanto o outro se fasta porque já não consegue lidar com a intensidade e se sente cansado pela dor acumulado e por sentir que nada do que faça pode ajudar ou melhorar, sente-se profundamente insuficiente para mudar e ultrapassar a crise da relação.

O que parece é mesmo que um quer salvar a relação e o outro está cansado e sem vontade.

Mas por trás deste padrão de comunicação nem sempre há falta de amor e sentimentos. Quando olhamos para as camadas mais profundas desta dinâmica, vemos exaustão, mágoas e ressentimentos antigos, discussões e conflitos repetidos, falhas de comunicação e uma forte sensação de que já fizeram inúmeras tentativas de sair da crise da relação, mas sem resultados ou verdadeiras mudanças.

Sinais de que o casal entrou neste impasse

Há alguns sinais frequentes de que um casal chegou a este ponto:

1. Sentir que só um quer conversar sobre a relação

Um dos dois sente que é sempre quem levanta os temas, quem pede para conversar, que tem muitos pedidos, quem pede clareza e quer definir o que se está a passar e procurar ajuda.

2. O outro responde de forma curta ou evita os temas

Este membro do casal silencia-se, tenta mudar o assunto, pede espaço, diz frases como “já não tenho energia para isto” ou “não sei se vale a pena”.

3. As conversas tornam-se mais pesadas do que úteis

Quando conseguem falar, há uma sensação de que não são compreendidos, podem escalar rápido e terminar a conversa sem que o assunto fosse entendido e têm uma sensação de vazio e desgaste. Repetem os mesmo argumentos, as mesmas dores e frustrações.

4. Um quer terapia e o outro resiste

Nestas situações é frequente um dos membros do casal querer procurar ajuda e fazer terapia de casal, vendo esta ajuda coma a última possibilidade de reconstrução da relação. No entanto, o outro tende a ver a terapia como mais uma fonte de exposição e desgaste, mais uma exigência quando já se sente no limite e sem energia.

5. A possibilidade de separação começa a surgir

Por vezes os casais chegam a expressar esta possibilidade, outras vezes têm pensamentos sobre a separação e sentem que pode acontecer. Já não parece uma hipótese, mas algo que pode acontecer.

Estar cansado não significa sempre que se deixou de amar

Esta é uma parte importante.

Os casais podem-se sentir cansados e isso não significa que o amor desapareceu. Muitas casais ainda nutrem sentimentos um pelo outro, mas já não conseguem continuar da mesma forma. No fundo, já não suportam a repetição de um padrão que os faz sofrer muito, ou a sensação de falha constante, ou o peso das discussões e a ideia de que tudo depende delas ou de que nada muda verdadeiramente.

Muitas pessoas querem salvar a relação movidas pelo amor, mas acabam por misturar o amor com medos, urgência, ansiedade e desespero. Tudo isto pode levá-las a tentativas de aproximação de uma forma que o outro sente como pressão.

Por isso, neste tipo de crise da relação, o mais importante não é decidir depressa quem tem razão. É perceber o que cada um está a viver, o que está por trás da insistência de um e do cansaço do outro.

Ainda há um caminho?

Muitas vezes sim.
Apesar de nem todas as relações serem reconstruídas nos ciclos de desgaste, a verdade é que muitas beneficiam de um espaço onde seja possível abrandar, compreender o que se está a passar, falar e escutar de outra forma.

A terapia de casal pode ajudar precisamente aqui: quando já não conseguem sair sozinhos do impasse. Não para obrigar ninguém a ficar, mas para criar clareza. Para perceber se ainda existe disponibilidade emocional, o que se perdeu pelo caminho e se há condições para reconstruir ligação, confiança e presença.

Quando um quer salvar a relação e o outro está cansado, o pior que pode acontecer é continuar tudo igual durante demasiado tempo. Com mais dor, mais silêncio e mais distância.

Olhar para isto com honestidade não destrói necessariamente a relação. Muitas vezes, é o primeiro passo para perceber se ainda há um “nós” que pode ser cuidado.

Se se revê nesta dinâmica, procurar apoio pode ser uma forma de deixar de viver esta dor sozinho/a e começar a compreender o que, afinal, está a acontecer entre os dois

 

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Referências

Baucom, B. R., Dickenson, J. A., Atkins, D. C., Baucom, D. H., Fischer, M. S., Weusthoff, S., Hahlweg, K., & Zimmermann, T. (2015). The interpersonal process model of demand/withdraw behavior. Journal of Family Psychology, 29(1), 80–90. https://doi.org/10.1037/fam0000044

 

Roddy, M. K., Walsh, L. M., Rothman, K., Hatch, S. G., & Doss, B. D. (2020). Meta-analysis of couple therapy: Effects across outcomes, designs, timeframes, and other moderators. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 88(7), 583–596. https://doi.org/10.1037/ccp0000514

 

 

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