“Discutimos sempre da mesma forma.” O que mantém os casais presos neste ciclo?

"Discutimos sempre da mesma forma." O que mantém os casais presos neste ciclo?

Porque discutimos sempre da mesma forma?

Há casais que discutem sobre dinheiro.
Outros sobre os filhos.
Outros sobre tempo, casa, sogros, intimidade, mensagens por responder ou pequenas coisas do dia a dia.

Mas, ao fim de algum tempo, surge uma sensação muito clara: não importa o tema, a discussão acaba sempre no mesmo sítio, “discutimos sempre da mesma forma e não conseguimos sair deste lugar”.

Um insiste. O outro afasta-se.
Um critica. O outro defende-se.
Um quer resolver tudo naquele momento. O outro fecha-se, cala-se ou diz:
“Já não vale a pena falar.”

E é aqui que muitos casais começam a sentir-se presos neste ciclo. Não apenas ao conflito, mas à repetição do padrão. O que mantém os casais presos neste ciclo?

O problema nem sempre é o tema da discussão

Muitas vezes, o casal acredita que discute sempre por causa da mesma coisa. Mas, na verdade, o que se repete nem sempre é o assunto, é a forma como entram em conflito.

Esther Perel fala da importância de olhar não só para o conteúdo da discussão, mas para a sua forma. Ou seja: o que acontece entre os dois enquanto tentam falar? Quem persegue? Quem evita? Quem aumenta o tom? Quem se cala? Quem tenta ser ouvido através da crítica? Ela descreve também um ciclo de escalada negativa, em que cada pessoa provoca no outro precisamente a reação que mais teme ou rejeita.

É por isso que tantas discussões parecem cópias umas das outras.

A frase muda, o dia muda, o motivo muda.
Mas o guião emocional mantém-se.

O casal entra num padrão, e o padrão fala mais alto

Terry Real descreve que, em momentos de conflito, muitas pessoas regressam a hábitos antigos que as deixam presas na desconexão. Em vez de aproximarem, essas estratégias empurram o amor para longe. Às vezes aparecem como ataque. Outras vezes como silêncio, frieza, superioridade, desistência ou passivo-agressividade.

É comum ouvir frases como:

“Tu nunca me ouves.”
“Lá estás tu outra vez.”
“Tenho de ser sempre eu a falar disto.”
“Se eu disser o que penso, isto vai acabar mal.”
“Tu complicas tudo.”
“Já estamos na mesma conversa de sempre.”

Por baixo destas frases, costuma haver algo mais fundo: medo de não ser importante, sensação de não ser visto, cansaço, solidão, vergonha, frustração, impotência.

Mas como isso raramente é dito de forma clara, o casal continua a discutir à superfície, e a sofrer em profundidade.

Porque é tão difícil sair deste ciclo?

Porque, na maior parte das vezes, ninguém entra numa discussão a pensar: “Hoje vou afastar ainda mais a pessoa que amo.”

Pelo contrário. Muitas destas reações são tentativas de proteção.

Quem insiste, muitas vezes está a tentar não perder a relação.
Quem se fecha, muitas vezes está a tentar não escalar ainda mais o conflito.
Quem critica pode estar, no fundo, a pedir proximidade.
Quem se cala pode estar sobrecarregado e sem recursos.

O problema é que a forma de proteção de um toca diretamente na ferida do outro. E assim nasce a repetição.

Então, como começar a discutir de maneira diferente?

O primeiro passo não é resolver tudo. É reconhecer o padrão.

Em vez de perguntar apenas “sobre o que estamos a discutir?”, pode ser mais útil perguntar:
“O que acontece entre nós quando nos sentimos magoados?”
“Como é que esta dança começa?”
“O que faço eu que te afasta?”
“O que fazes tu que me ativa?”

Outro passo importante é interromper a escalada antes que ela tome conta da conversa. Terry Real fala do time-out como um travão, um corte necessário quando a interação já está a tornar-se destrutiva. Não para fugir, mas para evitar que a discussão continue em modo de ataque e defesa.

E há ainda algo essencial: falar a partir da experiência interna, e não apenas da acusação.

Em vez de: “Tu nunca estás presente.”
Pode surgir: “Sinto-me muito sozinho/a quando tento falar contigo e sinto que te afastas.”

Não é magia. Não resolve tudo de imediato. Mas muda o terreno da conversa. E o amor constrói-se no dia a dia: lê mais aqui.

Repetir a mesma discussão não significa que não haja saída

Todos os casais passam por ciclos de ligação, desconexão e reconexão. A questão não é nunca falhar. A questão é perceber se conseguem voltar a encontrar-se depois da falha. Esther Perel sublinha precisamente isso: o conflito existe em todas as relações, mas criar novos padrões de consciência mútua é uma peça central para melhorar a dinâmica relacional.

Se sentem que discutem sempre da mesma forma, talvez o problema não seja “falarem demasiado”, mas sim não conseguirem sair sozinhos do mesmo circuito.

Nesses casos, a terapia de casal pode ajudar a reconstruir a comunicação. Não para decidir quem tem razão, mas para compreender o padrão, abrandar a escalada e voltar a criar espaço para escuta, clareza e ligação.

Porque, às vezes, o que o casal precisa não é de ter a conversa perfeita.
É de finalmente conseguir ter uma conversa diferente.

Referências

Baucom, B., Atkins, D. C., Simpson, L. E., & Christensen, A. (2011). The language of demand/withdraw: Verbal and vocal expression in dyadic interaction. Journal of Family Psychology, 25(4), 570–580.

Leo, K., Baucom, B. R., Baucom, D. H., Christensen, A., Atkins, D. C., & Georgia, E. J. (2020). A replication and extension of the interpersonal process model of demand/withdraw. Journal of Family Psychology.

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