Gritar, castigar, dar uma palmada ou usar estratégias que provocam sensações de vergonha e culpa parecem resultar bem no curto prazo. Isto acontece porque provocam um estado emocional muito poderoso: o medo. Na verdade, estas estratégias além de pouco eficazes na educação das crianças, podem levar a insegurança nas relações, baixa autoestima, agressividade e revolta.
Afinal o que acontece quando as usamos?
Gritar, castigar e humilhar a criança fazem com que o seu organismo produza e liberte no organismo cortisol, pois ativam as áreas do cérebro responsáveis pelos circuitos de medo e ansiedade. Assim, no curto prazo parecem produzir o resultado esperado: a criança interrompe o comportamento indesejado e até é provável que o evite no curto prazo.
Se resulta, então são boas estratégias?
Os resultados, sobretudo os de curto prazo não são tudo. Aliás, diria que são quase nada no desenvolvimento e potencial de uma criança.
Na verdade, a criança que é frequentemente castigada, envergonhada, que funciona diariamente com gritos ou palmadas tem elevada probabilidade de desenvolver a sua personalidade de duas formas distintas. Recordemos que o seu desenvolvimento resulta de variáveis contextuais, genéticas e de personalidade ou temperamento, e por isso, observamos nas crianças, diferentes construções do seu mundo interno de significados, diferentes visões das relações e diferentes atitudes e comportamentos.
Quais são as consequências?
Algumas crianças crescem, mantendo muitos receios na sua vida. Em adultos, desenvolvem ansiedade nas suas relações e não as vêem como seguras. São mais vigilantes em relação ao que dizem e fazem e pensam muito sobre como os outros interpretam as suas atitudes e comportamentos. Estas pessoas têm muita necessidade de agradar aos outros. Na verdade, isto acontece porque foi o que os pais e cuidadores lhes ensinaram: “Mereces o meu amor e respeito se te portares de determinada forma!”. Neste sentido, para encaixar no amor dos pais e sobreviverem fazem muitas cedências. Mas não sem graves custos psicológicos, uma vez que para agradar e serem merecedoras de amor, para manter as relações, estas pessoas abdicam do processo de construção da sua individualidade e vivem as relações com um enorme sentimento de insegurança.
No entanto, o efeito poderá ser precisamente o oposto. Neste grupo temos as crianças que, para sobreviver desenvolvem defesas e tentam elas próprias ser dominantes nas relações. São mais agressivas e poderão ser mais autoras de bullying. Recordemos que foram elas próprias as vítimas em primeiro lugar. E, com isso, fizeram a leitura de que força e agressividade significam poder, e que podemos ser abusadores numa relação. Estas pessoas podem parecer indiferentes e pouco afetadas pela opinião dos outros. No entanto, por trás destes comportamentos e atitudes, está uma profunda revolta em relação aos cuidadores que foram incapazes de transmitir afeto na forma como corrigiam o comportamento.
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