Perda gestacional

perda gestacional

A perda gestacional contínua a ser um tema que é alvo de muitos tabus, levando, por isso, a que as pessoas que passam por ela se sintam sozinhas e invisíveis no seu vazio e sofrimento. Tristeza, culpa, ansiedade e solidão são apenas alguns dos sentimentos associados.

Porquê esta solidão numa perda gestacional?

Uma gravidez continua a ter uma elevada carga social e familiar, levando, assim, a uma grande pressão sentida pelos casais. Perante um teste positivo são muitos os casais que optam por não contar de imediato. Para muitos o período convencionado são as 12 semanas, por haver maior probabilidade de perda gestacional associada ao primeiro trimestre. Ainda assim, o facto de não ser partilhado com as pessoas significativas e próximas leva a que, em caso de perda gestacional, o casal se sinta só e invisível na sua dor. Os familiares ou amigos não partilharam da alegria e têm mais dificuldade em compreender o sofrimento. Não existe uma decisão certa sobre quando deve ser partilhada uma gravidez. Contudo, o que posso dizer da minha experiência profissional é que as pessoas que partilham com alguém próximo, em caso de perda sentem-se menos sozinhas e mais compreendidas no seu sofrimento.

A perda gestacional pode ser traumática?

O potencial traumático de uma perda gestacional aumenta à medida que a gravidez avança. Este impacto é compreensível, uma vez que o casal vai confiando e dando cada vez mais realidade ao seu bebé e projetando o futuro. Ainda assim, nenhuma perda gestacional deve ser desvalorizada e todas têm a possibilidade de provocar trauma.

Perda Gestacional: Qual o impacto psicológico?

É esperado que uma gravidez termine com o bebé nos braços das mães e pais. Por isso, quando isto não acontece muitos casais sentem a necessidade de procurar um significado ou uma explicação para este desfecho.

Quais os sentimentos mais frequentes?

  • Tristeza: sensação de um luto profundo, como em qualquer perda de alguém próximo.
  • Culpa: auto-culpabilização sobretudo materna: pensar repetidamente em tudo o que fizeram, procurar saber se algo pode ter desencadeado o aborto ou o que poderiam ter feito para o evitar.
  • Raiva e Frustração: o processo de luto pode desencadear sentimentos de revolta e zanga direcionada a si, ao seu corpo, às pessoas à volta ou mesmo sem um alvo específico.⁠
  • Isolamento: a solidão pode vir da incompreensão e não validação dos seus sentimentos por parte das pessoas à sua volta.
  • Ansiedade e Medo: é frequente que haja muito receio em relação a futuras gravidezes, preocupações sobre a saúde e sobre ser possível uma nova gravidez.
  • Depressão: sentimentos persistentes de tristeza, perda de interesse em atividades usuais, alterações no sono e apetite, e dificuldade em funcionar no dia a dia.
  • Choque e negação: é possível que haja momentos em que as pessoas se sintam incrédulas e tenham dificuldade em aceitar a perda.
  • Impacto social: pode ser difícil participar em eventos sociais, sobretudo se na família e no grupo de amigos existirem casais à espera de bebé. Ao receber a notícia de gravidez de alguém próximo, o casal pode sentir uma grande ambivalência: estar feliz pela pessoa e, ao mesmo tempo, muito triste por si próprio. É normal que haja algum ressentimento e mesmo inveja.
  • Vazio e Desesperança: em relação ao presente e ao futuro.

Algumas considerações importantes

Todas as emoções devem ser aceites e validadas. Muitos casais sentem desadequação naquilo que sentem, sobretudo perante outros casais à espera de bebé. Muitas vezes as pessoas desvalorizam o sofrimento o que faz com que o casal se sinta desajustado na experiência e vivência destas emoções.

IMPORTANTE: Não é suposto que as pessoas sintam que o seu sofrimento é alvo de julgamento ou crítica.

Existe apoio psicológico especializado, por isso em caso de necessidade é importante procurar ajuda.

Precisa de ajuda? Entre em contacto.

Referências

Wamser, R., & Ferro, R. A. (2024). Rainbow babies: Trauma and parenting after pregnancy loss. Psychological Trauma: Theory, Research, Practice, and Policy.

Cuenca, D. (2023). Pregnancy loss: Consequences for mental health. Frontiers in global women’s health3, 1032212.

Navabinejad, S., Rizzo, A., & Kiliçaslan, F. (2024). Exploring The Psychological Impact of Miscarriage on Women. Psychology of Woman Journal5(2), 59-65. https://journals.kmanpub.com/index.php/psywoman/index

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