Quando nos sentimos pressionados, sem recursos ou cansados perdemos parte da nossa flexibilidade e é mais difícil recorrer a estratégias que requerem tempo, paciência e muita gestão de expectativas. “Gritar” é muitas vezes um recurso automático e quase imediato. E… parece funcionar. De facto, isto acontece, porque, muitas vezes, as crianças interrompem subitamente o comportamento.
Afinal o que acontece quando usamos esta estratégia?
Quando gritamos com as crianças o seu cérebro vai ativar estruturas do sistema límbico, que são responsáveis pelos níveis de alerta e pelos circuitos de medo e ansiedade. O corpo da criança fica inundado de cortisol e é ativado um mecanismo de defesa denominado “freeze” (congelar). A criança não parou o que estava a fazer por empatia ou porque compreendeu que o seu comportamento seria desadequado. Também não o fez porque entendeu que existem alternativas ou porque a sua necessidade foi suprida. O que aconteceu foi uma paragem provocada pelo medo ou susto intenso.
Porque não devemos usar esta “estratégia” para controlar o comportamento
das crianças?
Em primeiro lugar porque estamos a ser um modelo de desrespeito, que é precisamente o oposto do que queremos ensinar.
Em segundo lugar porque o recurso a estes métodos promovem alterações no desenvolvimento cerebral: os nossos filhos estão a crescer e, na primeira infância, o seu cérebro apresenta elevada plasticidade. De forma muito simplista, significa que as experiências pelas quais passam têm a capacidade de fazer com que se desenvolvam “mais” umas áreas do que outras. Como foi
referido, ao gritar com as crianças vão ativar-se no cérebro estruturas do sistema límbico e circuitos de medo e ansiedade, que são responsáveis pelas respostas de freeze (congelar), fight (luta) e flight (fuga).
A estimulação continuada destas áreas faz com que fiquem mais reativas. Isto leva a que o cérebro memorize e percepcione o ambiente à sua volta como ameaçador e desenvolva modelos internos negativos e padrões de insegurança.
Por outro lado, inibe o desenvolvimento de estruturas responsáveis pelas funções cognitivas superiores e prejudica o desenvolvimento intelectual e emocional.
❌ Porque não funciona?
- Porque desencadeia emoções de angústia, ansiedade e medo. Estas emoções bloqueiam processos de aprendizagem e dificultam o processamento da informação. Pensemos em nós adultos – se alguém nos gritar vamos ouvir e aceitar o que a pessoa nos diz?
- Porque não promove a autorregulação.
- Porque nos faz parecer descontrolados. Alguém que parece descontrolado
não tem credibilidade. - Porque estamos a modelar este tipo de reação.
⚠️ Gritar pode ser útil em situações de perigo e em que estamos a alguma distância, para criar alerta, fazendo com que as crianças “corram para nós”, protegendo-se. Se as crianças estiverem habituadas ao tom elevado, não surtirá qualquer efeito.